Ontem eu fui ao Centro, ao Centro velho do Rio de Janeiro, andei pelas Ruas dos Andradas, Praça Quinze de Novembro, Distrito Naval, e no fim da Rua Sacadura Cabral, onde tem/tinha uma tradicional casa de essências para perfumaria, eu fui comprar ali, aos pés da escada de acesso ao Morro da Conceição, logo vi sentada de saia verde, uma kalin, igual a mim, o sorriso se abriu, ela abriu os olhos muito negros, iguais aos meus e elevantou-se com aquele sorriso. Eu fui ter com ela, que me abraçou e disse: - Tu ta parecendo Gadji! rs......(por causa das sacolas que eu carregava)...
Ela subiu alto e disse: Vem Ca, fica um pouco comigo! Eu sentei-me na escada... Duas kalonzie, como há muito tempo atrás, ela me contou que casou com um Matchwaya, que saiu e foi acolhido pelos latatchos e ai foram viver perto do estacionamento da santa (Nossa Senhora da Conceição). Ela então disse: Vamos tomar um lanche! Aceitei na hora.
Passamos então no Bar do Adão (já morei na Rua jogo da Bola), e logo compramos uma porção de coisinhas gostosas, imitações da Catalunha, pão doce, leite condensado, mate, e ainda apanhamos frutas no pe do morro, no quintalão de “Seo” Adao. Quando chegamos fizemos uma festinha particular, com direito a pão com azeite e arroz doce com ervas finas....
Tudo muito lusitano.... A amiga Patricia chegou a disse: - Que cheiro bom de Arroz de cigana! Eu logo ri e disse: - Estou vendendo a cinqüenta milhões cada potinho! Ela Riu: - Vou comprar TUDOOOO!!! Risos....
E assim ficamos ali, e depois fomos ver a Santa no Estacionamento, andamos lembrando aqueles dias de loucura na escadaria do Valongo, dos áureos dias da Rua Jogo da Bola......
Sabe desde que vim a ter a casa de cimento (a capa), tinha tempo que não encontrava uma amiga na rua assim. Kalonzi do olho preto, fazedora de arroz doce, nossa situação melhorou muito do tempo de quando éramos crianças.... Mas que ainda tem uma exclusão para alguns...da realidade de não ter internet em casa.....

Estava ainda na escada da Sacadura. A mesma escada gasta de quando subíamos correndo e trabalhando com aquele amor pela raiz. Encontrando uma kalin ou outra sem ter que ter encontro marcado. Lanchamos rimos como em Portugal.
Não tomamos vinho, porque ela estava nas mandingas eu nos preceitos espirituais. Mesmo assim, o interessante foi que tivemos a mesma alegria de outrora.
A vida corrida faz a gente se afastar, faz a gente ter outras diretrizes, e no final so se dedica ao que se precisa. E assim de repente no meio da rua, se descobre que so se necessita de um pão com azeite, de um arroz doce, e de uma saia verde, para ser feliz. Lembrei de nossos dias de Praça Quinze, quando a gente ria das Gadjis e fugia dos marinheiros, que corriam atrás da gente, gritando: - Meu sonho é casar com uma Cigana! Risos...
Sabe, nestas horas modernas, a gente pensa, que celular, micro, ar, que a gente não vive sem isso....
Pois bem, naquelas horas, me pareceu, que tendo uma boa companhia, basta, para se ter e dividir o que há de melhor na vida, que é a felicidade, de sentir, ver, ouvir, que muito pouco se precisa para ser feliz.