terça-feira, 31 de agosto de 2010

Nascer da Tsara Kalimã Romani

No começo troca de oraculos, e uma certa simpatia. Como moravámos em estados diferentes, trocas de e-mails frequentes. Convites e ideias de Elis, para eu Ramona, ministrar cursos, descobertas comuns na espiritualidade e cada vez mais nossos caminhos se foram se entrosando. Despretenciosamente, Elis, me fez um convite quando eu, Ramona, ainda nem morava no Rio de Janeiro, para talvez um dia trabalharmos juntas.

Vim ao Rio de Janeiro, e logo recebi um convite para nos encontrarmos, foi rapido, mais muito agradavel. Creio que ali, naquele momento, o mundo espiritual traçou um roteiro que nao sabiamos que iria tao longe.

Eu ao sair, senti que Elis, pela recepção que me deu, acreditava no meu trabalho, com respeito, ela identificava meu jeito (jeitão Ramona, que nao é facil de lidar) e ja começava ali, o trabalho de conquistar meu coração, sem que eu percebesse.

Como uma autentica Bába, uma cigana muito inteligente, Elis foi me trazendo, lidando com aquele jeito desajeitado de eu ser, me deixando cada vez mais entrelaçada pelos laços do amor, sentindo que o amor espiritual tinha-nos raptado, para fazer uma caravana, bem maior.

Eu, Ramona, quando vim morar no Rio de Janeiro, ja tinha projetos bem amarradinhos pela minha irmazona Elis. Começamos uma caminhada, dificil, os primeiros projetos foram bacanas, outros com problemas, depois do começo de nossa estrada, muitos problemas, ataques de muitos lados, tentaram desestruturar nossa amizade, com disse que disse, com falsas informações, tentaram jogar uma contra a outra..... Por vaidades, interesses, por gente que não gosta de ver ninguém feliz.....

Porém o mundo dos Espiritos, tudo vê. E entre nós nunca ouve entre a gente duvidas, tudo entre nós sempre foi falado, da forma mais clara, do olho no olho, da sinceridade, da confiança mútua, entao nada conseguiu nos abalar nesta caminhada...... Além disso tudo foi sendo mostrado, as mascaras caíram....Pessoas que se contra-disseram.... enfim fez-se uma peneira em torno de nós.

E caminhamos, e tivemos opinioes diferentes, mas sempre nos respeitando, sempre trocando carinho e principalmente respeito. Este ano, apos muitos anos de pedidos de liberação da divulgação dos fundamentos, primeiramente pelo astral e posteriormente pela Kumpania Kalon Evoriana de Itaguaí/RJ, na pessoa do Barô Julio Stancovisth e da Bába Gisa da Kumpania Kalon de Pirassununga/SP, chegamos a montagem do curso Tsara Gitana, que foi a ponta do percurso que teriamos que trilhar.

A ponta da egregora que ja estava firmada entre nós, estava vindo a tona. Decidimos entao fazer uma festa diferente, das lindas festas que tinham atração de dança, ou de cunho somente espiritual.

Nas nossas conversas ao pé do boldoeiro, sentadas no chão, Elis me disse: Ramona, quero fazer algo muito diferente, que abrangesse tudo isso. E tive a ideia de fazer uma festividade chamada “Mulengui Dori”, que se traduz em “Evocações”, neste dia, por recados que o astral sabe dar quando esta programando pra isso, tivemos o veredito, em forma de ordem. Entao soubemos que nossa Tsara estava pronta, ja nao erámos mais amigas que estavamos nos conhecendo, estavamos fazendo algo muito importante, divulgando conhecimentos, fazendo um trabalho espiritual serio, lidimo, e assim nasceu a Tsara Kalimã Romani.

Nasceu assim do nao reclamar, das tarefas arduas que enfrentamos, do obedecer a nossos mentores (que danadinhos, trabalham juntos lindamente) do compromisso e honradez com a espiritualidade!

Hoje nestes primeiros dias, traçamos planejamentos para anos distantes hoje, mas sei que cada vez mais, estamos entrelaçadas como nunca imaginariamos antes, e agora é só colocar a mão na massa!
Opcha! Olêa! Border! Ni Kisoua Mulós! Whuzo mi Drom!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Iniciação Espiritual dos Ciganos



Falar de iniciatica é tao dificil quanto por em pratica. Ate porque sao pactos astrais, que muitos fazem sem o estar totalmente conscientes da responsabilidade assumida com a espiritualidade superior. Entao revelar que os ciganos debaixo dos ceus fazem um processo iniciatico rigoroso, pode causar um espanto, mas, o que vos trago é informação pura do que acontece nas kumpanias.


As crianças que revelam dons mediunicos sao iniciadas a partir dos sete anos. Ainda que um cigano possa ser iniciado em qualquer epoca da vida, com qualquer idade. Hoje como nos primordios, os direcionamentos dos ritos sao os mesmos. O que muda é o fato de estar sendo revelado aos que nao sao da kumpania, mas que na sua ancestralidade trouxeram para dentro de suas casas (casa-corpo, casa templo), a essencia dos ciganos, amando-o e respeitando, com todo fervor, e por isso foi lhes dado conhecer, o que dentro da espiritualidade, fara muita diferença na vioda de cada um. É a primeira vez, que esta sendo revelado, uma vez que nós nao possuimos leis que nos obriguem a ser iniciado, ou mesmo livros codificadores.Temos uma serie de principios basicos, aceitos por todos os ciganos salvo uma modificação ao outra conforme o cla.

É essa aceitaçao, aliás, que torna possível a fraternidade universal e a sua condiçao de grande família no seio da Humanidade, sem que, no entanto, necessite existir um cargo politico religioso como um papa, que centralize uma Ordem, que ja nos é natural.Nos naturalmente aceitamos, as condiçoes de melhoria, ate por estar no acompanhamento da evolução do planeta. Nao existe por exemplo uma sociedade politica, o que nos importa é o fator melhora da vivencia mediunica, dentro de uma sociedade gadje cada vez mais unida a nós.


Ate porque entre nós os conceitos de Fraternidade é muito forte, entre nós o fato de ser cigano, já é preponderante, para que nos aceitemos como familia, mesmo entre os rati (de sangue) para com os ciganos de alma. Por isso carinhosamente nos chamamos todos de primos. Um dos prinicpios da iniciação dos ciganos, é estar conectados com o astral superior o tempo todo e isso nos impoe uma postura terrena, que consiste em que estes que vem principalmente pelos laços do amor (apos analisados, muito analisados), serem reconhecidos como irmaos, e assim devemos trata-los no tocante ao prestar auxilio e proteção.Somos um povo perante as leis espirituais do “nao proibir”, porem que cada um saiba o onus que tera com suas proprias açoes.

Ate enato para nos o que une é o amor, e todos durante as iniciações sao “bebes que estao acordando”. E apos despertos serao todos ciganos aptos ao grau de liderança elevado a um Barô espiritual, isto justifica o fato de a iniciação ser tao longa (sete anos). Cada cla astral tem forma propria e metodos proprios de trabalho, embora as diretrizes dos trabalhos astrais sejam as mesmas em todos os clas. 


O que lhes cito aqui é em torno da iniciatica Kalon evoriana, o que abrange uma boa parte dos kalons ibericos, excluindo-se, o kalon Latacho, porque acreditamos que estes ja nascem iniciados na magia dos ciganos.

Sao ritos da iniciatica, e a existencia significa que eles devem ser aplicados na pratica, embora a obediencia seja o fator de maior importancia em toda a vida mediunica dos ciganos. O nascimento da convenção dos ritos iniciaticos foram consolidados no passado, nos primordios e como nossa tradiçao é oral, nao temos documentos que atestem o ano, porque para nós ciganos, isso nao é importante. Mas acreditamos que tenham sido convencionados durante os terriveis anos da Santa inquisição, para que todos os iniciados em qualquer “passo” pudessem se livras das garras dos Tribunais do Santo Oficio.

No que chamamos de “Khertia Drom” (o Papel do Caminho”, papel no sentido de missao), trabalhamos em torno de aprender os ensinamentos e nos qualificar para o trabalho astral, porque este tanto representa em muitos casos a subsistencia material dos ciganos, e tanto quanto seguir as regras, do trabalho para o qual foi preparado.Os estudos de outras artes, como astrologia, magia elemental, magias dos cristais e velas, evocações serao complementares na magia de trabalho dos ciganos. 


Isso fez com que pudessemos evoluir e ate mesmo iniciar um começo de revelações nesta nova era. Afinal o ocultismo que faz parte naturalmente de nossas tradições deve ser partilhado tal qual como o pao. Sei que tal atitude ainda encontrará diversas reações, e muitos mesmo dirao que nao ha iniciatica nenhuma! Pero como me coloco a serviço dos espiritos, a eles me reporto, na intenção de fazer publico estes ensinamentos, para que cresça ainda mais o cla que trabalha na seara de Cristo. O que cada um vai fazer apos conhecimento, pertencerá a estrada de cada um. 


Como creio no amor aos espiritos ciganos, sei que o direcionamento ha de vir, no trabalho do bem, creio nisso. E os ritos, as cerimonias, sao e tem carga simbolica dos laços que estamos fazendo, e isso marca profundamente (atraves de sensações) o espiritos de quem se submete a tais ritos.

 Existe uma linha de pensamento que aquele que se submete leva para a sua vida pessoal o mesmo padrao de comportamento de sua vida espiritual. Como diz a biblia: “Devemos preservar os misterios. A palavra, os sinais e as regras”. Sendo que acreditamos que o iniciado, sendo conhecedor da palavra (digo das palavras), da importancia do trabalho, e as regras, ele nao se desvirtuará do seu dever.

Somos um povo mágico, enérgico e passional. Somos peculiares dentro do nosso próprio código de ética; honra e justiça e senso no sentido e sentimento de liberdade que contagiam e incomodam qualquer sistema. Mas nossa comunidade ama e respeita a natureza, os idosos e todos os membros do grupo educam as crianças de todos, dentro dos princípios e normas próprios de uma tradição puramente oral, cujos ensinamentos são passados de pai pra filho ou de mestre para discípulo, através das estórias contadas e das músicas tocadas em torno das fogueiras acesas e das barracas coloridas sempre montadas ao ar livre (mesmo no fundo do quintal das ricas mansões dos ciganos mais abastados).


Para nós, a Lua Cheia é o maior elo de ligação com o "sagrado" quando são realizados os grandes festivais de consagração, imantação e outros festejos em geral. A celebrações da Lua Cheia, acontece em torno das fogueiras acesas, do vinho e das comidas, com danças e orações. Somos atentos observadores do Céu e verdadeiros adoradores dos astros e da magia elemental. Estamos sempre atentos para os ciclos naturais, através dos quais desenvolvemos poderes mágicos.

Na culinária a alquimia é feita com amor e encanta quem se alimenta e nutre o espírito, são indispensáveis: o cravo, a canela, o louro, o manjericão, o gengibre, os frutos do mar, as frutas cítricas e as frutas secas, o vinho, o mel, as maçãs, as pêras, os damascos, as ameixas e as uvas que fazem parte inclusive dos segredos de uma cozinha deveras afrodisíaca. O punhal, o violino, o pandeiro, o leque, o xale, as medalhas e as fitas coloridas; a coruja, o cavalo, o cachorro e o lobo são símbolos sagrados para nós. A verbena, a sálvia (que deve ser cultivada sozinha, por que é muito ciumenta), o ópio, o sândalo e algumas resinas extraídas das cascas das árvores sagradas, são ingredientes indispensáveis na manufatura caseira de incensos, velas e sais de banho, mesclados com essências de aromas inebriantes e simplesmente usados no dia-a-dia, nos contatos sociais e comerciais, nos encontros amorosos e principalmente nos ritos iniciáticos, de uma forma sensível, conferindo grandes poderes. 


Nós vivemos de acordo com a natureza das coisas e os grandes barôs dizem: "A sabedoria é como uma flor, de onde a abelha faz o mel e a aranha faz o veneno, cada uma de acordo com a sua própria natureza". Todos acham que conhecem os ciganos. E de uma maneira geral são poucos os que não exprimem de uma forma categórica o seu conhecimento sobre nós. Existem mesmo "especialistas" que falam sobre as questões ciganas. Mas na verdade o que se tem são ideias que se foram construindo sobre os ciganos a partir do século XV e que se foram rapidamente cristalizando sob a forma de estereótipos. Nós somos pouco conhecidos. Na realidade o que se manifesta em relação a nós é um certo romantismo.

A iniciatica da ancestralidade imaginada nos remete para a necessidade de questionar a nossa relação com a espiritualidade e a beleza dos espíritos ciganos. Somos um povo que possui rara beleza, exala sensualidade, transmite segurança para aquele que nos procuram; somos fortes e determinados quando assumimos um trabalho, não deixando nada para depois; somos médiuns de personalidade marcante, severa e disciplinadora, ao mesmo tempo em que somos ternos e doces. 


Muito dizem de sermos passionais, emocionais e por causa disso mesmo é que procuramos sempre auxiliar as pessoas de maneira inconfundível e decisiva. Auxiliamos também de maneira marcante as mulheres que recorrem a nós com problemas de fertilidade ou de ordem sexual. Damos grande valor ao conceito família. Já que pelo lado espiritual somos todos aparentados.

Magia do Cigano Juan para Prosperidade

Rezar com uma vela vermelha acesa, durante cinco dias. Acender, rezar tres vezes seguidas, e apagar a vela. Usar no dia seguinte, no ultimo dia deixar queimar até o fim. 


“Cigano Juan, grande guardião, vós que conheceis os quatro cantos do mundo, busque energias da Prosperidade, das cidades altas da Espanha, dos Desertos do Egito, dos altos Mares do mundo, das Tannuris Marroquinas, de todo canto que possa beneficiar este ambiente, e que minha aura fique encantada, fazendo com que tudo que eu possa tocar fique encantado.
 Pelo ardor da vela vermelha, pelos poderes do açúcar, por este dia de hoje e pelas horas que são, que venha a mim sem atropelos, sem trancos nem solavancos, seja pelo encanto e pela magia, toda o ouro do mundo. Que as energias douradas dos tendais do mundo onde passaram os ciganos, velhos, novos, encantados e de ouro, venham ate mim. 
Pelos poderes do ouro, eu afirmo e digo: Água e ouro, ouro e água, deserto rico, assim encanto e uso, pois na minha vida, água e ouro não hão de faltar. Pelos segredos das turquesas, pelos portais das magias do ouro, aos ciganos que nasceram, e aos que ainda vão nascer. Pela força do caminhar dos ciganos no mundo. Enfrento e venço nos caminhos, com a força de Juan, pela cruz e pela rosa, pelo negro e pelo branco, a força do ouro cigano estará sempre comigo, nada ha de me faltar”.

sábado, 10 de julho de 2010

E foi assim com o Tsara Gitana


           Cada vez que se da um passo para frente, quem teve a perna quebrada por sua propria imprudencia e nao pode acompanhar, puxa os passos para tras.



           Sou kalin sim, sou luso brasileira, estou fazendo acá, hoje, o que muitos pensavam que nunca aconteceria: Libertação dos conceitos religiosos de kumpania, estrutura espiritual e iniciaticas romanis. Pois é minha gente, o tempo nao para, ja dizia o poeta. A dinamica dos espiritos, é muito maior quer a nossa, a coisa veio a publico sim, atraindo milhares de pessoas, ciganos lidimos, de alma, e sao pessoas que querem beber na fonte evoriana, ainda que digam que em Portugal nao ha mais ciganos...



         Isso incomoda, isso fere, quem quer que o segredo e a dinamica fiquem estagnados, para que com seus meios escusos, enganar, trair, ludibriar as pessoas de boa fé.



          Quem entra na chuva é para se molhar, ja dizia minha avó, nao é mesmo? Sei disso muito bem, Mas evoriana como sou, que comi dentro das barracas, comidas feitas no fogo de lenha de salgueiro, aprendi a ser madeira, a durar, a resistir, a nao ceder à pressoes, nem me abalar com os pregos que furam minha casca, que ferem o externo.



          Pois sei que tenho raizes muito profundas e fortes. Os pregos e ventanias, batidas no meu tronco, sempre existirão, pois o incomodo é um só. É porque libertando preceitos, ate porque fui autorizada por isso, tanto na terra, tanto pelo astral, isso descortina os misterios trazendo clareza e luz. As pessoas sentem, recebem respostas do astral, nunca antes reveladas e a perseguição se faz por isso. Porque o “Conhecimento Liberta”!

Por Ramona Torres. E gratidao ao Curso Tsara Gitana, gratidão a Elis Peralta, e aos meus alunos – Cícero, Tania, Andrea Reis, Luciana, Helen Cris, Tania Nit, Sonia, Paola, Monica, Val, Cristiane, Darlene, Leila e Bruno, Roberta, Dalva, Isabel, Adriana, Salles, Marilia, Monica Dias e Elailson, Jeanne, Jorge, Janaina, Eliane, Lucia, Meire, Fabiano, Alexandre, Andreia Guerra, Celi, Taise, Ana, Taisa, Marco Aurelio e Luciana, Maura, Telma, Henrique, Nilton, Elis, Margareth, Vera e Samira, pela força, pela luz e porque nao me deixam desistir da luta! Lacio!


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Minha participação no quadro do Dicró no Fantastico!



Foi muito divertido, a gravação foi bem mais longa do que apareceu, mas foi tudo num clima de bom humor e todos foram muito respeitosos e delicados, eu adorei! E no ar apesar de poucos minutos, achei tudo muito bem cuidado. Agradeço a todos, em nome de todos os Ciganos, em especial os Kalons, o respeito com a nossa Magia, de coração!
Meus Agradecimentos a esta competente e carinhosa equipe:
Felipe Wainer,
Marcela Amodio
Dario Menezes
Flavio Lordello

O divertido e respeitoso, Dicró

E também minha querida amiga, Danielle Viana

domingo, 13 de junho de 2010

Portugal em mim!

Castelo dos Mouros
       Ontem fui a Sintra. Primeiramente subi as longas estradas de serra que da acesso ao, dos mais belos lugares que a presença dos ciganos já pode ver, pode pisar com toda a intrepitude dos apaixonados. Senti como uma terra minha, que esta em mim, foi preciso sim, peregrinar por todos os recantos tradicionais onde passaram os meus ancestrais.
        Estive no meu Portugal, cheio de histórias de feitiçaria, como a ver com graça um mármore raiado daqueles que somente em Sintra se pode ver.
       Ao chegar, na noite alta, um cálice de conhacque, como tomamos nos acampamentos para fugir do frio lusitano. Depois um copo alto de água fresca. Fui a Sintra despertar olhares, longos e pertubados com a minha presença. Tao alta, a cigana de botas, toda vestida de encarnado, visto quando foi tirado o sobretudo. As pulseiras fazendo barulho...... coisa de ciganos.........
       Ainda na noite fria observei, que minha alma passava como eu fazia em criança, andando com as saias esvoaçantes pelos centiares, onde eu mesma fui pela manha, revi os paredões de pedra, onde eu acreditava morar Arangelou-dã. Coisas de menina, impressionada, com a mula sem cabeça, o lobisomem, o saci que roubava as tsaras....... custei a entender que era o dinheiro gasto sem permissão dos maridos.....
        Parecia que estavam la, Cruges – o Maestro, Carlos, Alencar, e que a fumaça do pafeito subia entre as combinações que dariam rumo  a toda kumpania. Um tela sublime.
       Pela manha, fui até a querida Quinta da Regaleira, onde nos meus sonhos “avrasileirados”, acreditava que Carvalho Monteiro havia feito o poço iniciatico, a pedido dos reis, para la, jogarem os ciganos................. Depois de muito tempo, quando eu já nao era uma djulli, vi o que representavam os símbolos mitológicos, esotéricos, os deuses, jardins e grutas, um mundo a ser descoberto.............Fantastico!
        No Palácio da Pena, logo vi (descobri) porque os Evorianos apaixonados de pouco, mudavam para Sintra, tantos Jardins, Lagos, Fontes e Mansões, que traziam a inspiração para nossas danças, magias e nossa clientela de mulheres que sofriam do mesmo mal de amor, que nos afligia! Ha Pena! Pena do nome do Palácio, pena das pessoas que no frio portugues não tem com quem se aquecer!
       E vi tambem porque nos idos de Dom Fernando de Saxe-Coburgo, tinha tanta paixao que saltava dos olhos negros das ciganas, que tanto magiavam, quanto amavam.
        Lembrei das queixadas de leite, tão amadas pelos sintrenses e por toda a terra dos descobridores das Indias, donos de uma gastronomia que enlouquece hoje qualquer cardiologista, lembrei dos seus porques.  Onde as moças aprendiam com as romies a colocar um ingrediente totalmente humano, feminino e secreto, mas que enfeitiçava o homem amado e que era servida só pra ele, na boca!
        A subida pelas ladeiras, o ar puro, as quintas tão visitadas das Consuelos e Judiths, no caminho do Castelão dos Mouros, que faziam e fazem a alegria masculina de Sintra e garante o ar amoroso, que sustenta o funcionamento das Ofisas.
         No Castelo dos Mouros com suas diversas muralhas e fortes, onde pisei, tambem vestida de vermelho, em outra época, marca a presença arabe que tanto se ve na Europa, na Árzua espanhola dos ciganos, na Praça do Giraldo, na Balada das Bicicletas em Leiria, enfim em tudo e principalmente nos olhos quentes e apaixonados das ciganas.
       É ontem quando desci aos centiares, vestida de vermelho, com minhas saias, com meus cabelos negros aos ventos, vi que sou cigana, que tenho sangue quente, que sou feiticeira. Percebi no olho da pessoa, encanto, paixão e um certo temor de se perder naqueles cabelos.......... Não pude evitar, afinal Sintra é feita para os amantes! E que debaixo do céu lusitano, tem que haver suspiros de paixão, de amor, de saudade, pois só este ingrediente é que move o mundo!


Escrito regado a vinho da Quinta dos Amores, em Paredes/PT, nas conversas com Titi Rosário.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Hierarquia e Estrutura Espiritual da Tsara Gitana

Para começar a falar disso de como funciona a hierarquia e estrutura da família, da existência carnal e espiritual dos ciganos tenho que começar falando da mulher cigana. Para nós que vivemos dentro de uma cultura intrinsecamente machista, temos um papel muito forte, afinal os dons mediúnicos da mulher são sempre considerados, apesar de aparentemente sermos mais frágeis, mais sendo presença indispensável tantos nos cultos quanto nas casas e barracas. Afinal qual é o homem, baro, dirigente, filho, irmão, marido, sobrinho, melichs, ratói ou qualquer homem que saia para tomar uma decisão forte e que altere as vidas dos ciganos sem consultar as formas mediunicas, trabalhadas pelas mulheres do cla.

Na vida espiritual é a mesma coisa. A estrutura dos acampamentos e da vida dos ciganos também é considerada como estrutura espiritual, ate mesmo porque os espíritos ciganos já foram pessoas encarnadas um dia, então a estrutura espiritual vem do mesmo jeito. Através de confirmações hierárquicas, e os cargos são: Melichs, Kalinata / Ratói, Manouche / Puri Day / Shuvani, Barô / Bába. Seguindo as classificações ergomínicas que os rons utilizam para nomear os grupos, também utilizamos nomes em romani para poder definir missões espirituais. O primeiro cargo pode ser realizado em qualquer idade e por ambos os sexos, mesmo que a pessoa tenha sido iniciada no Khértia Drom ou nao e esteja nos últimos cargos a serem realizados.

Geralmente nós ciganos somos iniciados aos sete anos quando após saber a que elemento pertencemos e se temos missão mediúnica. Mesmo tão cedo nós ciganinhos já presentes ao trabalho espiritual, realizamos o trabalho de auxiliar e trazer os recados dos espíritos quando estes estão incorporados, traduzindo o que eles falam, servindo os chas, vinhos, cigarros, pafeitos, é o trabalho mais sublime, sem o qual não se faz culto. O melich (que em romanes quer dizer ajudante ou auxiliar), serve tanto para a ciganinha quanto para o ciganinho, eles são responsáveis pelo cuidado das ofisas, mesas, tchaios e aparatos mediúnicos em geral. O segundo cargo deve ser dado após o fim do Khértia Drom e pode se estender durante ate 30 anos do servir, embora muitos aos 20 anos já se mobilizem e trabalhem dentro dos cargos superiores, mas sem voto dentro dos acampamentos, sempre só utilizando a dar conselhos.

Ambos podem ministrar o Khértia Drom. Dependendo da pessoa e do trabalho que ela exerça tanto espiritual quanto de ramasordé, é o cargo que a maioria dos ciganos ficam a vida inteira e quando mudam de função acabam não largando as tarefas, visto que estão tão acostumados que já fazem naturalmente. A Kalinata (mulher) ou Ratói (homem), tem aqui as mesmas funções que é cuidar para que tudo aconteça dentro do trabalho espiritual ou de kumpania. Verificam a segurança do acampamento, ou tsara espiritual, cuidam dos que guardam (espíritos), de todos os aparatos, dão ordens aos Melichs, são os olhos e ouvidos dos Barôs e Bábas.

São os mais cobrados tanto espiritualmente quanto nos seus acampamentos de origem. Um Barô ou Bába, se verem algo errado chamarão um deles e os encarrega de resolver o problema, as Vourdakies devem ser realizadas por Kalinatas e Ratóis, que devem conhecer seus fundamentos profundamente. Dificilmente durante o exercer deste cargo se opõem ou desobedecem as ordens dadas. A Kalinata (que em romanes quer dizer “Operaria”), é uma mulher que quando exerce seus conhecimentos com padrão de comportamento impecável, são pessoas muito consideradas, e tem autoridade para chegar ate o Barô sem marcar, independente de ela ser mãe ou não, que é uma coisa que da autoridade a mulher.

Embora ainda sem voto, são ouvidas porque estão dentro da kumpania ouvindo a todos. O Ratói (que em romanes que dizer “Sabedor”), é o homem que decide junto da kalinata tendo as mesmas atribuições. Astralmente e fisicamente é o homem que coloca verdadeiramente as mãos para resolver o que deve ser feito. Dentro das Tsaras fisicamente, dentro do mundo encarnado que temos, dentro do mundo espiritual também. Independente dele ter constituído matrimonio ou não.

As fogueiras, são tarefas exclusivas dos Ratóis, tanto a arrumação, quanto acendimento e definição do que fazer com as cinzas que geralmente são entregues as Kalinatas. Após 20 anos ativos e com autorização pedida e dada, ou 30 anos ativos sem pedidos de autorização, tanto a Kalinata quanto o Ratói, podem passar pelos ritos de Roti Diena e serem chancelados por um Barô ou Bába, para ter outras atribuições. A mulher Kalinata, terá um grau nesta estrutura diferente do homem, depois do Roti Diena, ela conforme o clã e origem ela receberá a função de Manouch (que em romanes é nome de clã e quer dizer feiticeira), Puri Day (que em romanes quer dizer
Matriarca, sua palavra é chanceladora, principalmente na magia), Shuvani (que em romanes quer dizer Sacerdotisa, que trabalham na Ramasordé).

Elas podem ter descendência de qualquer linhagem de clã, será considerado pelo clã de origem. O Clã tanto de origem encarnada como espiritual será considerado, dado o nome a ser definido pelos espíritos. Todas terão a mesma atribuição, orientar as kalinatas, Ratóis e Melichs. Execer voto, direitos a palavra, a ramasordé, e a se casar sem autorização do Clã. Assim como ministrar o Roti Diena. O homem não passa por este estagio intemediario, ele é logo chancelado Barô. Por isso os ritos diferenciados e separados. Apenas em toda a estrutura encarnada, um clã dispensa estes ritos, que são os Kalons Latatchos, que são tidos nos clãs astrais, como prontos para o trabalho espiritual. Após 15 anos as Manouchs, Puri Day e Shuvanis, podem ser indicadas para ocupar o cargo de Bába.

A Bába que tem tanto poder quanto o Barô embora necessite da concordância dele para casos mais graves, tem poder de autorizar, mandar, esclarecer, definir e outras atribuições, somente sendo exclusa do Kris Romani, onde somente homens podem estar. Para os Gadjós: Desses cargos expostos a pessoa que fizer parte de uma tsara como médium, poderá após autorização astral, passar pelos ritos de preparo para o trabalho astral, embora possam exercer os cargos de Melichs, Kalinata / Ratói, Manouche / Puri Day / Shuvani, nunca serão chancelados Barôs e Bábas. Os espíritos que dirigem as tsaras é que tem estes títulos.

Algumas vezes as pessoas chamam os dirigentes, mas em virtude do carinho que se desenvolve em torno dessas pessoas não porque elas sejam de fato, a não ser que sejam ciganos de sangue, até porque não existe Barô e Bába que não sejam ciganos de sangue. O que pode ser alterado em casos específicos, devido as precisões, as idades podem ser diminuídas para os casos de necessidade extrema, se não tiver mais ninguém para ocupar. Porque a idade para nós é algo muito importante, já que com a vivencia se ganha maturidade. Os dirigentes independente do sexo serão chamados de Jutsi (que em romanes quer dizer “Soldado”).